Todos os dias, antes mesmo de o usuário chegar a uma Unidade Básica de Saúde (UBS), o cuidado pode começar na porta de casa. É durante as visitas domiciliares que os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) conhecem de perto a realidade das famílias, identificam necessidades, orientam sobre prevenção e ajudam a aproximar a população dos serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Celebrado neste domingo, 4, o Dia Nacional do Agente Comunitário de Saúde reconhece a atuação desses profissionais, que estão diretamente inseridos nos territórios e mantêm contato permanente com as comunidades.
Em Aracaju, os ACS acompanham grupos prioritários, como gestantes, crianças, idosos, hipertensos e diabéticos, realizam busca ativa, atualizam informações cadastrais, acompanham a situação vacinal e identificam demandas que precisam ser encaminhadas às equipes das unidades de saúde.
Para a coordenadora dos Agentes Comunitários de Saúde, Itamária Franco, a profissão surgiu justamente da necessidade de aproximar o cuidado das pessoas que mais precisavam de acompanhamento.
“Quando foi criado o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, os agentes não necessariamente precisavam ter nível médio. O interessante era que eles morassem na comunidade e tivessem contato com a população. Muitos dos agentes que iniciaram o programa eram pessoas conhecidas na comunidade, como benzedeiras, pessoas que tinham relação com a igreja ou com alguma associação do bairro. Eram essas pessoas que eram selecionadas para trabalhar batendo de porta em porta”, explica.
Segundo Itamária, a criação do programa ocorreu em um contexto de altos índices de mortalidade infantil e dificuldades no acompanhamento de gestantes e crianças.
“Naquela época, o índice de mortalidade infantil era muito alto. As mulheres não faziam pré-natal, as crianças não eram acompanhadas, havia muita desnutrição e fome. Então, o agente batia na porta de todo mundo, avaliava as crianças, verificava o cartão de vacina e fazia esse acompanhamento. Foi de extrema importância a criação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde”, afirma.
Com a estruturação do SUS e a consolidação da Estratégia Saúde da Família, a atuação dos agentes também foi ampliada. Atualmente, os profissionais acompanham os moradores de seus territórios e funcionam como uma ponte permanente entre a comunidade e as equipes de saúde.
“Os agentes comunitários de saúde são o elo entre a comunidade e a unidade de saúde. Eles promovem saúde, trabalham com prevenção e fazem busca ativa de hipertensos, diabéticos, gestantes e crianças. Os indicadores de saúde de Aracaju dependem muito do que eles trazem para a gente por meio dos cadastros individuais e domiciliares. Por isso é tão importante que a população receba esses profissionais em casa”, destaca a coordenadora.
Qualificação e valorização profissional
A atuação dos agentes também acompanhou a evolução da própria profissão. Em Aracaju, os profissionais concluíram formação técnica específica para a categoria, enquanto a reestruturação da carreira estabelecida pelo Município passou a prever nova tabela salarial e progressão profissional, com regras em vigor desde janeiro de 2026.
Para Itamária, a qualificação representa uma mudança importante na trajetória dos trabalhadores.
“Eles são todos formados como técnicos. Então, os agentes comunitários de saúde hoje são técnicos de agentes comunitários de saúde. Essa qualificação deu a eles uma melhor qualidade de vida e uma melhora também na questão salarial. Além disso, existe a questão do plano de cargos e carreiras. Quem tem nível superior ganha um valor a mais, quem tem nível técnico ganha um valor a mais. Isso é totalmente importante”, ressalta.
Agente comunitário de saúde há 28 anos, Francisco de Jesus acompanhou diferentes momentos da categoria e avalia positivamente as mudanças recentes.
“Eu avalio com um olhar muito positivo. É uma coisa que nós almejávamos há muito tempo e só agora conseguimos. Com essa reestruturação, houve um avanço muito grande. Nós tivemos também o curso, que tinha iniciado em um período lá atrás, no passado, e não tinha sido concluído. Graças a Deus, teve início novamente com essa gestão e nós conseguimos concluir”, conta.
Com quase três décadas de atuação, Francisco também destaca que o trabalho dos ACS é construído de forma coletiva, com troca de experiências entre profissionais que atuam em diferentes territórios.
“O trabalho em equipe é muito importante porque você está ali no território ou na UBS e eles trocam conhecimento um com o outro. Nós vamos aprendendo a experiência de uma comunidade e levamos para outra comunidade, sucessivamente. Se a gente trabalhar sozinho, isolado, não vai para lugar nenhum”, afirma.
Escuta e prevenção nos territórios
A rotina dos agentes é marcada pelas visitas domiciliares. Em cada território, as necessidades são diferentes, e o acompanhamento considera as características da população e os grupos que demandam maior atenção.
Agente comunitária de saúde há 17 anos, Márcia Maria Souza explica que a presença do profissional permite identificar demandas que nem sempre chegam espontaneamente à unidade.
“Quando eu adentrei aqui na unidade, eu não conhecia de fato a saúde pública tão intimamente como conheço hoje, sendo agente. Hoje eu percebo que a figura do agente de saúde em uma comunidade traz uma certa ligação da comunidade com a unidade básica, com a saúde pública. O agente cria um vínculo, onde a população consegue trazer suas queixas e suas demandas, para que a gente possa ser esse elo, de fato, entre a comunidade e a unidade”, explica.
As visitas são realizadas diariamente, com prioridade para pessoas e grupos considerados mais vulneráveis.
“Nós fazemos visitas diárias, visitas domiciliares, priorizando, utilizando o princípio da equidade, os grupos mais vulneráveis. A gente visita hipertensos, diabéticos, idosos, crianças e gestantes. Isso não significa que os outros sejam menos importantes, porque em muitas visitas fora desses grupos nós acabamos encontrando necessidades, inclusive necessidades urgentes. Os demais grupos nós visitamos com menos frequência, mas não deixamos de cobrir”, destaca Márcia.
A agente ressalta que o acompanhamento não se limita à identificação de doenças, mas também envolve a orientação e a prevenção.
“Eu não procuro apenas saber se ele veio ao posto de saúde. Eu procuro saber como está a saúde dele, para dar aquela alertada para que as questões de saúde continuem sendo acompanhadas, mesmo quando a pessoa faz tratamento no particular. O agente de saúde é o agente de prevenção, não é o de ação na resolução de uma doença”, afirma.
Moradores reconhecem importância das visitas
Moradora do Sol Nascente, a artesã Mônica Andrade acompanha de perto o trabalho dos agentes de saúde que atendem sua família. Para ela, a visita domiciliar facilita o acesso aos serviços, especialmente para pessoas que têm dificuldade de sair de casa.
“Quando eles chegam aqui, eles consultam minha mãe, perguntam como é que ela está, olham a vacinação, a carteira de vacinação, para ver se tem alguma coisa atrasada. É um trabalho maravilhoso. Sem eles seria muito difícil, principalmente para quem tem pessoas que não podem sair de casa”, afirma.
Segundo Mônica, os profissionais também ajudam a intermediar a comunicação entre a família e a equipe da unidade de saúde.
“Eles já passam tudo para o médico, fazem esse intercâmbio entre o paciente e o médico. Já passam a ajuda, já marcam, o médico já vem. Porque, sem eles, como seria? Até a gente, que somos os cuidadores dos nossos pais, como é que a gente faz para sair? Fica difícil. Então eles já fazem esse intermediário entre o paciente e o médico”, relata.
O vínculo construído durante as visitas também ganhou um significado pessoal para Mônica, que destaca a relação de confiança estabelecida com a agente que acompanha sua família.
“Ela parece até minha psicóloga. Eu desabafo muito com ela, até meus problemas com a minha mãe. Eu não tenho ajuda da família. São oito filhos e, de domingo a domingo, não aparece uma. Então eu desabafo muito com ela. Ela me ajuda muito. É minha parceira para todas as horas”, conta.
Para ela, o acompanhamento também funciona como um lembrete para a manutenção de cuidados preventivos.
“Às vezes a gente se descuida da vacinação, mas logo lembra: ‘Preciso vacinar, tenho que ir lá’. O mesmo acontece com os exames de rotina. É um suporte que funciona muito bem. Somos muito privilegiados”, afirma.
Mônica também defende que as famílias recebam os agentes, independentemente de utilizarem exclusivamente a rede pública ou contarem com atendimento particular.
“O SUS está em todo lugar. Quando eles fazem essas visitas para quem usa o particular, eles estão levando saúde, mas é a saúde preventiva. A questão da ausência de saúde não é só você estar doente. São várias questões, até de saneamento básico, que eles observam e podem estar intervindo dentro do território e buscando melhorar a saúde da comunidade”, destaca.
Informação também chega às comunidades
Para a jovem Kamille Oliveira, também moradora do Sol Nascente, a proximidade com os agentes facilita o acesso da população às informações e aos serviços de saúde.
“Eu acho que os agentes de saúde são muito importantes porque facilitam muito a vida dos cidadãos. Aqui no bairro, a gente sabe que pode contar com eles. Se eu tiver alguma dúvida ou precisar de alguma informação, posso procurar o agente e ele vai me orientar”, afirma.
Segundo ela, essa proximidade também auxilia moradores que não sabem qual serviço procurar diante de determinada necessidade.
“Às vezes, a gente não sabe onde buscar determinado atendimento ou como resolver alguma situação. Ter o agente por perto facilita porque ele consegue orientar e dizer qual é o caminho que a gente deve seguir”, conclui.
A atuação dos Agentes Comunitários de Saúde mostra que o cuidado em saúde também se constrói dentro dos territórios, por meio da escuta, da orientação, da prevenção e do acompanhamento contínuo das famílias.
Ao levar informações até os moradores e identificar necessidades que podem ser encaminhadas à rede municipal, esses profissionais fortalecem o vínculo entre população e serviços de saúde e contribuem para que o cuidado aconteça de forma mais próxima e permanente.

